quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

LÚCIA CERQUEIRA NÃO MORREU. TAL QUAL OXUM ELA SE ENCANTOU.

Hoje acordo com uma sensação estranha. Ainda não defino do que se trata.Vésperas do Carnaval de Salvador. Ontem, abri meu e-mail e encontrei um convite do Roberto Messias (amigo Porquinho) para inauguração da sala de Imprensa do Carnaval 2013. Dei de cara com o nome da homenageada e vibrei. Lúcia Cerqueira!!!  
Me encantei para logo em um segundo desabar em profunda tristeza. O convite é para uma homenagem póstuma e eu me recordei que geralmente é assim. Vários jornalistas já foram homenageados durante carnavais passados.
Eu recorri então ao Google e constatei. Em outubro de 2012, Lucinha morreu. E daí?
Em minha cabeça rolou um filme. Estavamos todos jovens saindo da adolescência nos anos setenta. Prestamos vestibular para Comunicação na Universidade Federal da Bahia. Ali ingressei aos 17 anos de idade.  Logo nos primeiros dias as relações começaram a se definir.
Eram anos tenebrosos da ditadura. Eram anos em que 3 pessoas juntas já eram consideradas suspeitas. Eu, particularmente, já trazia as marcas do movimento estudantil via Colégio Central da Bahia, Severino Vieira e Teixeira de Freitas. Agora,era a vez da UFBA – Universidade Federal da Bahia quando fui saudada pelo grande mestre Antonio Loureiro de Souza.
Mas o bom mesmo para jovens é a formação daquele grupo que irá estar conosco emocionalmente para sempre. E conheci Lucia Cerqueira.
Lucia Cerqueira e eu conseguíamos rir juntas. Haviam outras amigas também porém prefiro não citá-las aqui. Como entramos no jornalismo para dar sentido as nossas vidas fomos logo para os estágios. Era uma vida difícil. Estudo, jornal, rádio, TV. Era às vezes um lanche por dia.
Era um momento de raras mulheres no jornalismo e muitos homens tanto na Facom como nas redações. Temos as pioneiras mas chegamos depois. Lucia e eu passamos pelos mesmos veículos impressos. No Jornal da Bahia vivemos momentos extraordinários. Lá Lucinha e Remulo Pastore se apaixonaram. Um casal lindíssimo! Ele era também um amado amigo. Ele era mais risonho e mais extrovertido que o irmão Rafael Pastore que era secretário de Redação.
Não vou falar das minhas paixões e amores pessoais. O fato é que em todos os momentos públicos, Lucinha e Remulo estavam comigo. Em todos os meus lançamentos de livros, na Praça da Poesia, nas atividades de mobilização cultural, eles estavam comigo. Um dia Rafael Pastore partiu em um acidente automibilistico no Rio Vermelho. Anos seguintes, já casado com Lucinha , Reminho morreu praticamente no mesmo lugar que Rafael morreu, no bairro do Rio Vermelho. Lembro que quando cheguei ao Jardim da Saudade a imprensa estava toda lá. Era tão estúpida aquela situação que não dava para assimilar. Precisei de amparo para me manter de pé.
 
 
Então,  deixei Salvador embora sempre visitando a minha família.Eu e Lucinha trocavamos e-mails. Quando ia aos encontros jornalísticos olha nosso encontro maravilhoso! Era o momento de falarmos dos filhos. Ela também viveu um período em Brasília. A vida seguiu.
Mas volto ao e-mail do Roberto Messias: Sala de Imprensa 2013. Sala Lúcia Cerqueira.
Roberto Messias querido: você está enganado. E todos que pensam que Lúcia Cerqueira morreu estão enganados. Dizem que ela foi cremada. Mas ninguém pode dizer que Lúcia Cerqueira acabou. Absolutamente, ninguém!!!
Enlouqueci???!!! Não. Além dela ter nos presenteado com dois filhos ela nos deu  tanta alegria e integridade, que tanto enchem de orgulho a profissão.
Enlouqueci ???!!! Não!!! Lucinha chega com seus maravilhosos turbantes que realçavam ainda mais a sua beleza. As suas pantalonas fantásticas. E aquele sorriso enorme, delicioso.
Em minha casa ela sempre foi muitíssimo querida. Tanto ela quanto Reminho de saudosos carurus e cantina da Lua. Das idas a Arembepe, das idas as ilhas. Das viagens ao interiorzão da Bahia.
Aqueles tempos de Universidade, aqueles tempos de Jornal da Bahia, aqueles tempos em que assumimos cargos importantíssimos, nunca nos fizeram mudar. Tudo era transitório e sempre soubemos disto.
Então, anuncio : LÚCIA CERQUEIRA NÃO MORREU. TAL QUAL OXUM ELA SE ENCANTOU.
E hoje, somente hoje, posso pensar em luto. Mas luto não combina com ela. Luto ela viveu por outras pessoas queridas e  tão comuns a nós duas.
Lúcia Cerqueira querida. Posso falar de saudade. Não irei falar de revolta. Soube ontem e ainda estou assimilando.
Mando recado para seus filhos: estou aqui e estou ao dispor. Obrigada minha amiga.
A saudade não é para agora. A saudade é para sempre.
Te amamos.
 
Vera Mattos
06/02/2013
 

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